Compreendendo o que é ética – Entrevista com Lourenço Stelio Rega


Compreendendo o que é ética – Entrevista com Lourenço Stelio Rega
Convidamos Lourenço Stelio Rega, autor de Dando um jeito no jeitinho (Editora Mundo Cristão), para nos ajudar na compreensão do conceito de Ética, em como podemos vê-la em nosso dia-a-dia e caminhada cristã.

Lourenço é Bacharel e Mestre em Teologia, com especialização no campo da Ética Teológica. Licenciado em Filosofia, Mestre em Educação, Pós-Graduado em Análise de Sistemas e Doutorando em Ciências da Religião. É diretor e professor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.

O assunto ética tem ocupado muito espaço na mídia nos últimos anos. Gostaríamos de começar esta entrevista com uma compreensão conceitual do que é ética. Como ela pode ser definida?

Lourenço – Ética pode ser definida como um conjunto de normas que regulam as decisões humanas. Para Ética Cristã prefiro definir como um conjunto de princípios que indicam o rumo para a vida. Veja que minha definição foge do absolutismo legalista e de um caráter decisionista na ética. Só isso seria um grande avanço.

Hoje se fala muito sobre bioética, ética na política e ética nas empresas. Há uma ética diferente para cada área de conhecimento? Existe uma “ética cristã”?

Lourenço – Na realidade é a mesma ética aplicada a áreas diferentes. Em cada área temos dilemas (prefiro falar assim em vez de “problemas”) de natureza diferente e que precisam de tratamento diferente, mas se adotarmos uma ética de princípio (ética principeísta), teremos o mesmo ponto de partida. Existe sim uma ética cristã, como existe uma ética marxista, uma ética existencialista, uma ética nietzschenana, etc. Na realidade, cada uma dessas abordagens parte de um ponto de início diferente. Isto é, tem seus fundamentos ligados a fontes diferentes. A ética cristã parte de um conceito cristão de vida; a marxista parte dos conceitos marxistas, etc.

Há uma profusão de termos ao redor deste tema. De que forma palavras como moral, caráter e valores se relacionam com a ética?

Lourenço – De fato você tem razão. Para começar, “moral” e “ética” são sinônimas em sua etimologia. A primeira vem do latim e a segunda do grego, mas eu costumo diferenciá-las para fins didático. Enquanto que ética se refere às normas/ princípios, então, ao que deve ser, é normativa, moral é descritiva e se refere à vivência ética de um certo povo ou comunidade, ou seja, se refere ao que é, às práticas éticas. Caráter tem a ver com conjunto de características que identificam uma pessoa, é um somatório de sua personalidade, de seu temperamento, de como isso se mostra na prática. Aqui temos um sério dilema na ética, e pouco discutido nos livros, e que posso resumir no seguinte: em geral, temos uma ética decisionista, isto é, uma ética que focaliza apenas a decisão humana, é uma ética binária, pois trata apenas dos polos “certo/ errado”, “bem/ mal”. Mas antes de uma pessoa decidir existe o que podemos chamar de impulsores e demotivadores, isto é, ela segue “forças” ou motivos que lhe indicam o caminho a seguir. Estas “forças” ou motivos são fruto de seu caráter, então, antes de pensarmos numa ética decisionista será preciso pensar numa ética de caráter, isto é, uma ética ontológica, como prefiro chamar. Em outras palavras, posso até tomar uma decisão correta, mas é preciso que meu caráter seja correto.

A ética trata de questões do dia-a-dia como limite de velocidade no trânsito, devolução de troco a mais e sonegação de impostos?

Lourenço – Por padrão, a ética vai cuidar da decisão humana (ética decisionista), e sempre decidimos, mesmo que fiquemos sem decidir nada, decidimos não decidir, pois uma não-decisão também é uma decisão, a de não decidir. Meio complicado, não é verdade? Mas é isso mesmo. Assim a ética vai dar indicativos de como deve ser a decisão de cada um em cada situação da vida. Mas não confudamos ética com estética, uma coisa é decidir ir de bermuda numa audiência num fórum, outra é que tipo de bermuda ou que cor escolher. A primeira é ética, a segunda é estética.

Há uma linha de pensamento que afirma que uma atuação ética na condução dos negócios pode ser fonte de lucros já que a empresa se torna mais confiável. A percepção de uma ética nas organizações cristãs seria capaz de se transformar em “fonte de ovelhas” ou “fonte de recursos” para os ministérios?

Lourenço – Aqui temos uma outra visão que talvez fuja do campo da ética, que é a adoção de uma teologia de mercado. Você poderá adotar uma estratégia de negócios e segui-la, se é compatível com a Bíblia ou não deve ser vista com a lente não apenas da Ética Cristã, mas também com a lente da Teologia. Tratar o crente como cliente é incompatível com a teologia bíblica, antes mesmo de ser incompatível com a ética. Vamos partir do ponto em que a Teologia Bíblica é fundamento para a Ética Cristã. Por outro lado, nos negócios, que não sejam religiosos, ter lucro não é a questão, mas ter lucro abusivo. Muitos diriam que esta abordagem é capitalista, mas eu não vou investir o meu tempo no socialismo e outras formas como o marxismo que já ruíram junto com o muro de Berlim e se você quiser ver como isso funciona na prática é só morar em Cuba, mas vá com uma passagem só de ida, você teria coragem? O empreendedor acaba assumindo o risco e precisa ter um fundo de contingência, precisa ter o retorno de seu investimento, assim como o trabalhador precisa ter uma justa paga por seu trabalho. O marxismo com o seu conceito artificial e reducionista de mais-valia despreza tudo isso. Fico admirado vendo alguns cristãos defendendo isso ainda. Mas isso é assunto para outra oportunidade.

A Gazeta Mercantil publicou uma frase de Francisco Ricardo Blagevitch afirmando que “Como não existe meia democracia, não existe ninguém meio ético. Ou se é ou não se é.” O senhor concorda com esta afirmação?

Lourenço – De fato não existe nenhuma mulher meio-grávida também. Mas o Francisco Ricardo utilizou incorretamente a palavra ética. Pois não se pode dizer que uma pessoa é ética, pois depende da ética que ela segue, os hackers têm a sua ética, o bandido tem a sua ética, acabei de conseguir uma cópia do código moral do PCC (Primeiro Comando da Capital, facção criminosa no Estado de São Paulo). Assim, cada um tem um código de ética que segue, podemos entender que ele está dentro ou não do código, isto é, que ele segue ou não o código. Mas todos somos éticos, no sentido de sermos seres éticos, seres que possuem uma natureza ética, isto é, está gravado em nosso coração (os analistas de sistemas diriam em nosso firmware) o escolher entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Você pode aqui lembrar do nome do fruto da árvore do jardim do Éden que não poderia ser comido? Fruto do conhecimento do bem e do mal. Lembra-se da pílula do filme Matrix? Nesse sentido, ninguém não é ético, todos somos seres éticos, somos ou não coerentes com a ética que adotamos. Isso é um lado da questão, o outro é se a ética que a pessoa adota é uma ética lícita, e aí entra o que podemos chamar de ética comparada. A ética marxista não é compatível com a cristã, etc. Aqui temos uma dimensão mais profunda do assunto.

No Brasil é cada vez mais comum o uso de Códigos de Ética por parte das organizações. As igrejas e ministérios cristãos deveriam seguir este exemplo?

Lourenço – Os códigos de ética são instrumentos reguladores de atividades específicas e devem existir. A igreja deve ter a ética bíblica como seu norte, seu rumo. Mas as classes de obreiros também poderão ter cada uma o seu código de ética, assim, temos o código de ética dos pastores batistas do Brasil, que tive o privilégio de ser o redator e foi adotado no Brasil inteiro.

Ética cristã estaria diretamente relacionada à santidade, ou seja, ser ético seria o mesmo que não pecar?

Lourenço – A essência da vida é de natureza ética. Sei que você diria: “você diz isso por ser professor de ética, bioética!” Mas veja que a natureza do primeiro pecado humano no Éden foi ética e os teólogos dizem apenas que foi uma desobediência em comer de um fruto. Você acha que Deus reduziria toda história humana em apenas uma equação puramente digestiva, gustativa e culinária? Adão e Eva tencionaram ser como Deus, com o poder de decidir sozinhos sem depender de ninguém. Fomos criados para sermos dependentes eticamente de alguém, de Deus ou de Satanás. Adão e Eva escolheram ser deuses e acabaram ficando na mão de Satanás. A queda foi isso, a salvação nada mais é do que o retorno ao Éden. Infelizmente tratamos a Salvação como o maior bem do ser humano, mas é apenas um ”quebra-galho” de Deus para trazer de volta o homem para o seu estado original abandonado na queda. Colocamos a cruz no centro da História, e isto não é correto, o centro da História é a pedra removida do sepulcro, foi ali que Jesus mostrou ser Filho de Deus (Romanos 1.4). Precisamos resgatar a ressurreição como o centro de nossa Hisóoria. Se morremos com Cristo, será preciso também ressuscitar com Ele, para uma novidade e de vida (Romanos 6 e 2 Coríntios 5.14-17). Assim, quando seguimos a ética bíblica estamos no rumo da vontade de Deus, uma ética de dependência e incondicional, diferente da Teologia da Prosperidade e da Teologia de Mercado. E totalmente diferente da autonomia humana que tem sido implantada pela Modernidade e Modernidade Tardia (prefiro em vez de Pós-Modernidade).

A falta de ética dos cristãos tem prejudicado o avanço do Evangelho? É possível ser cristão sem ser ético?

Lourenço – Eu diria que a hipocrisia e farisaísmo têm prejudicado sim. Como disse, todo ser é ético, assim pergunta como “é possível ser cristão sem ser ético?” não cabe, mas no lugar disso posso dizer que é possível ser cristão e ser fariseu hipócrita, isto é, sem seguir os princípios éticos cristãos. Os cristãos são fariseus quando deixam de seguir e de se comprometerem com o estilo cristão de vida, seja nos negócios, seja no lar, nas amizades, na vida sentimental, sexual, etc.

Que conselho o senhor daria para um líder ministerial que está enfrentando problemas éticos com seus liderados? Como este assunto deve ser tratado nas nossas igrejas? No púlpito? No discipulado?

Lourenço – Em primeiro lugar, se há o ensino e pregação da Palavra de Deus por meio de um sério estudo e exegese, sermões expositivos, já conseguiremos criar as bases para que a pessoa possa se fundamentar para suas escolhas. Em segundo lugar, deve-se gerar um espírito sério e comprometido de comunhão, primeiro com Deus, mas também com o próximo (alteridade) e com o mundo criado (ecologia). Em terceiro lugar, uma comunidade deve ter um bom regime de disciplina, seguindo especialmente Mateus 18.15-17, disciplina terapêutica, mas também corretiva. Em quarto lugar, um processo de aconselhamento deve também ser providenciado. Em quinto lugar, deve ser evitado a todo custo um regime policialesco e de vigilância, de modo a se evitar que a igreja mais venha a parecer uma prisão. Deve-se ensinar o crente a ser maduro e saber tomar decisões na dependência de Deus. Creio que isso seria um ponto de partida.

Reprodução Autorizada desde que mantida a integridade dos textos, mencionado o site http://www.institutojetro.com e comunicada sua utilização através do e-mail artigos@institutojetro.com

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